Este documento descreve a fundamentação teórica do programa, o funcionamento detalhado do assistente de IA (o "mentor"), o sistema de rubricas que orienta suas respostas, a gestão de risco em camadas, os limites declarados do sistema e os pontos onde a direção clínica tem autoridade decisória.
O Sinais Claros é um programa estruturado de psicoeducação e treino de habilidades voltado a padrões de dependência emocional em relacionamentos. Ele opera exclusivamente no território educacional: apresenta construtos validados da literatura, propõe exercícios de auto-observação e escrita expressiva, e treina habilidades de tolerância ao desconforto e regulação — sem realizar avaliação, diagnóstico ou intervenção psicoterapêutica.
Essa fronteira não é um aviso de rodapé; é um princípio de engenharia. As restrições descritas nas seções 3 a 7 (regras invioláveis do assistente, triagem de risco anterior a qualquer resposta, encaminhamento ativo a serviços de apoio) existem para manter o sistema dentro dela. Os temas identificados como dependentes de condução clínica — manejo de ansiedade, reconstrução profunda de autoestima, casos com sinalização de risco recorrente — estão deliberadamente fora do escopo atual e aguardam direção profissional (seção 9).
O desfecho desenhado do programa reforça o posicionamento: o participante conclui com um Mapa de Jornada — um relatório de auto-observação com seus registros e evolução — cujo destino sugerido é a primeira sessão com um(a) psicólogo(a). O programa foi construído para preparar e encaminhar para a psicoterapia, não para concorrer com ela.
O conteúdo não parte de frases motivacionais: parte de construtos, cada um com autoria identificada, traduzido em leitura acessível + exercício correspondente. A tabela resume o mapeamento da Fase 1 (Despertar, dias 1–15); as fases 2 e 3 seguem a mesma lógica, com ênfase em prevenção de recaída e consolidação.
| Dias | Construto central | Base teórica | Operacionalização (exercício) |
|---|---|---|---|
| 1–2 | Nomeação do padrão; estilos de apego e a hipótese do "sistema de alarme" hiperativadoapego ansioso como calibragem precoce do sistema de vínculo | Bowlby (1969); Hazan & Shaver (1987)apego adulto romântico | Auto-observação estruturada: mapear gatilhos corporais e comportamentos de checagem, sem julgamento |
| 3 | Distorções cognitivas na leitura da relação (leitura mental, personalização, catastrofização) | Beck (1976); modelo cognitivo | Registro de pensamentos: separar fato observável de interpretação; reescrever a interpretação |
| 4 | Reforço intermitente: por que a resposta imprevisível gera o vínculo mais resistente à extinçãoa analogia do jogo; ativação de circuitos de recompensa na rejeição romântica | Ferster & Skinner (1957); Fisher et al. (2010) | Mapear o "esquema de pagamento" da própria relação: frequência e imprevisibilidade das respostas recebidas |
| 5 | Idealização e relação com a figura imaginada; a fantasia que cresce na ausência | Norwood (1985) | Inventário fato × fantasia: listar o que a pessoa demonstrou versus o que foi projetado nela |
| 6–7 | Interrupção de contato como manejo de estímulo; impulso como onda com curso natural (urge surfing) | Marlatt & Gordon (1985); Linehan (2015) — tolerância ao mal-estar | Protocolo do impulso: nomear, respiração ritmada (4–6), ação incompatível por 10 minutos; registro de cada onda atravessada |
| 8–9 | Aceitação radical da resposta recebida; autocompaixão como antídoto à autocríticaos três componentes: bondade consigo, humanidade comum, atenção plena | Linehan (2015); Neff (2003) | Carta de autocompaixão; reformulação da autocrítica em linguagem de humanidade comum |
| 10 | Luto de relação e perda ambígua: o luto sem corpo e sem funeral, que a rede social não valida | Kübler-Ross (1969); Boss (1999) | Ritual de despedida por escrito da versão imaginada; distinção entre a pessoa real e a figura idealizada |
| 11–12 | Reconstrução de identidade e reconexão com valores; sentido como direção (não como estado) | Hayes et al. (1999) — ACT; Frankl (1946) | Inventário de valores; agenda de reativação: recuperar atividades e vínculos abandonados durante a relação |
| 13 | Critérios comportamentais de reciprocidade ("interesse verdadeiro se comporta"): o detector de 7 verificações | Riso (2003); síntese comportamental do programa | Aplicar as 7 verificações à relação vivida; escrever os critérios inegociáveis próprios |
| 14 | Rede de apoio e vulnerabilidade como competência relacional | Brown (2012); literatura de suporte social | Mapa da rede; um pedido de apoio real executado em 48h |
| 15 | Prevenção de recaída: lapso ≠ recaída; o efeito de violação da abstinência e o plano pessoal de recaída | Marlatt & Gordon (1985) | Escrever o próprio plano de recaída antes de precisar dele; assinar os compromissos da virada |
Duas técnicas transversais complementam o desenho: a escrita expressiva como veículo principal dos exercícios (Pennebaker, 1997 — associação entre escrita emocional estruturada e desfechos de saúde) e a reavaliação negativa como estratégia validada de regulação do sentimento romântico (Langeslag & Sanchez, 2018 — a estratégia reduz o afeto pela figura amada, ainda que com custo emocional de curto prazo, o que o protocolo antecipa e nomeia para o participante).
Algumas obras de base (Norwood; Riso) são literatura psicoeducativa de ampla difusão, não pesquisa primária — e são apresentadas ao participante como tal. O programa não atribui a nenhuma fonte mais autoridade do que ela tem, e este mapeamento existe justamente para ser auditado, corrigido e redirigido pela direção clínica.
O "mentor" é um assistente de linguagem (modelo GPT-4.1-mini, temperatura 0,6, respostas limitadas a ~700 tokens) que opera exclusivamente dentro de tarefas definidas: comentar a atividade do dia à luz da rubrica correspondente e responder desabafos quando o participante solicita. Ele não conduz conversa livre, não abre tópicos e não persegue engajamento — cada interação nasce de uma ação deliberada do participante e termina na resposta.
Toda geração é governada por um prompt de sistema com seis regras invioláveis, reproduzidas abaixo na íntegra conceitual:
"Repara numa coisa importante no que você escreveu: a onda durou 20 minutos… e você não enviou. Você acha que 'quase cedeu'; eu li a história de alguém que atravessou a onda inteira sem saber que estava usando a técnica. O peito apertar ao ver o story não é fraqueza — é o alarme do Dia 2, funcionando. Amanhã, quando vier, experimenta nomear em voz alta: 'isso é uma onda'."
Observe os movimentos, que a rubrica induz: reforço diferencial do comportamento-alvo (não enviar), reatribuição do episódio ao construto já estudado (o "alarme"), normalização sem minimização, e uma única instrução comportamental concreta para o próximo episódio. Nenhuma interpretação de história de vida, nenhuma inferência clínica.
Participante envia atividade ou desabafo (ação sempre iniciada por ele)
Classificador local roda ANTES de tudo; risco detectado → resposta de acolhimento imediata + registro, sem IA
Item entra em fila assíncrona com limites: teto diário de uso global e limite por participante/dia
Prompt de sistema (regras) + rubrica do dia + texto do participante → resposta
Resposta entregue no app; uso, custo e eventos logados para auditoria
Três propriedades dessa arquitetura importam para a análise profissional. Primeira: a triagem de risco é anterior e independente da IA generativa — um participante em crise recebe acolhimento e encaminhamento em segundos, sem depender de modelo de linguagem algum. Segunda: os limites de volume (teto global diário e máximo de interações por participante/dia) funcionam também como salvaguarda contra uso compulsivo do próprio mentor: ao atingir o limite, o participante recebe uma mensagem que valida a dedicação e redireciona para os recursos autônomos (protocolo do impulso, escrita). Terceira: o dado que alimenta o prompt é minimizado — primeiro nome, dia da trilha, tarefa e o texto enviado; nenhum histórico completo, nenhum dado de contato.
Cada atividade do protocolo possui uma rubrica: um documento que define o que observar no texto do participante, como responder a cada padrão e o que é proibido. A rubrica é anexada ao prompt no momento da geração. É o instrumento pelo qual a direção clínica governa o comportamento do mentor sem precisar tocar em código: alterar a rubrica altera a resposta.
As rubricas cobrem também os padrões transversais mapeados durante a produção do conteúdo — por exemplo, a resposta à raiva com rótulo ("ele é um lixo") e ao participante que se descreve como função e não pessoa na relação — cada um com movimento de resposta próprio. O conjunto completo de rubricas é material de trabalho aberto à revisão da direção clínica, item a item.
Todo texto passa por um classificador local que busca sinalizações de ideação suicida, autolesão e violência/medo do parceiro, em dois níveis (alto e atenção). Detecção em qualquer nível: (a) a tarefa é interrompida; (b) o participante recebe imediatamente uma resposta de acolhimento fixa, escrita por humanos — não gerada — com direcionamento explícito ao CVV 188 (ideação) ou ao Ligue 180 (violência), e ao 190 quando cabível; (c) o evento é registrado com origem, nível e trecho, formando trilha de auditoria; (d) nenhum crédito é consumido e a IA não é acionada.
"O que você acabou de escrever é a coisa mais importante desta conversa — e eu quero que você receba o cuidado certo, agora. Por favor, fala com o CVV: ligação gratuita 188, a qualquer hora, ou chat em cvv.com.br. Se houver risco imediato, 190. Você não está sozinho(a) nisso. (…) Neste momento, a prioridade é você falar com alguém de verdade."
Ainda que um sinal escape à camada 1, o prompt de sistema instrui o modelo a interromper a tarefa e encaminhar diante de qualquer conteúdo de risco. Redundância deliberada: as camadas falham por mecanismos diferentes.
Os eventos de risco alimentam um registro consultável (participante, origem, nível, data), desenhado para revisão periódica humana — hoje pelo fundador; no desenho-alvo, por profissional habilitado, que definirá também o protocolo de acompanhamento pós-evento.
O classificador atual é lexical (baseado em expressões-sinal em português). Isso o torna instantâneo, auditável e independente de terceiros — e também limitado: não captura ideação expressa por circunlóquio, ironia ou metáfora. Essa limitação é uma das razões centrais do corte de escopo do programa: o sistema não se propõe a manejar risco; propõe-se a detectá-lo cedo e encaminhá-lo rápido. A evolução do instrumento de triagem (incluindo camada semântica e revisão do léxico) está listada como decisão da direção clínica, seção 9.
Supervisão hoje: logs completos de uso (volume, custo, falhas), fila com estados auditáveis, registro de eventos de risco e amostragem manual de respostas. Supervisão no desenho-alvo: painel de revisão para a direção clínica com amostras de resposta por rubrica, fila de eventos de risco e mecanismo de correção (editar rubrica → comportamento muda). O sistema foi construído para ser governado por quem entende do conteúdo, não por quem escreveu o código.
O que o sistema guarda: cadastro mínimo (nome, e-mail, plano), os textos que o participante escolhe escrever (atividades, desabafos, check-ins) e os registros operacionais (ondas, eventos de risco, uso de IA). Senhas com hash unidirecional; sessões autenticadas por token com hash em banco — um vazamento de banco não converte em acesso a contas.
O que sai para o provedor de IA: apenas primeiro nome, dia da trilha, tipo de tarefa e o texto enviado naquela tarefa — nunca histórico integral, contato ou identificadores. O envio de um desabafo para resposta é uma ação explícita e onerosa (consome 1 crédito): o consentimento é dado por ato, a cada vez, não por cláusula genérica.
O que nunca acontece: compartilhamento de registros com terceiros; uso dos textos para marketing; acesso de qualquer pessoa ao conteúdo além da operação técnica. O Mapa de Jornada só chega a um profissional externo mediante autorização expressa do participante, em fluxo de duas etapas.
Este documento descreve um sistema funcional — e incompleto por decisão. Os itens abaixo foram construídos para receber direção de quem tem formação clínica, com autoridade real de alteração (não consultiva):
Em síntese: a engenharia está pronta e testada; a governança do conteúdo é o assento vazio à mesa. Este documento existe para que a avaliação desse assento seja feita com informação completa — incluindo os limites que o próprio sistema declara.